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28
Dez
08

Ano novo, Marca Nova

O que é uma marca? Enquanto o conceito clássico nos remete a um símbolo feito pra distinguir um produto do outro, com sua tipologia e símbolos característicos, hoje nos defrontamos com um conceito de marca muito mais amplo e complexo. Numa época onde os produtos eram o elo forte da cadeia produtiva, e que ter o melhor produto ou um produto em particular fazia uma empresa mais forte e rentável que a outra, este conceito de marca foi muito importante e fundamental para guiar todos os que trabalharam com marketing. O que ninguém previa é que as marcas se tornariam parte das nossas vidas de forma a integrar-se a nossa cultura, nossos hábitos, aos nossos valores. Marcas que passaram a confortar-nos em momentos de dificuldade ou serviram como certeza em momentos de tantas mudanças, de relações tão líquidas, como diz Bauman.
Marcas deixaram de ser distinção. Marcas passaram a ser pactos, com valores inclusos. As marcas na verdade ecoam os valores e as promessas que elas construíram durante sua carreira de marca. Seus fracassos e suas vitórias. As marcas tornaram-se cada vez mais humanas e portanto capazes de serem amadas e odiadas como qualquer um de nós.
Não é à toa que venho falar sobre isso nessa época, pois cada ano tem sua marca, e como marca, com seus erros e acertos, firma um pacto conosco. 2008 prometia ser um ano de grande crescimento – e foi – mas firmou o pacto da realidade conosco: não podemos crescer para sempre desta forma, não podemos alavancar nossos lucros com lastros falsos, não podemos mexer na natureza sem esperar grandes catástrofes em retorno. Mas também firmou um pacto de esperança e expectativa: o que teremos no próximo?
Que venha 2009, uma marca nova de ano, e que venha com mudança, esperança e novos valores. Valores onde o homem valha mais, e as coisas findas – como diria Drummond – fiquem conosco, onde é seu lugar.

02
Dez
08

Experiência, Branding e Restaurante

Estou cansado de ouvir que Branding e gestão de marca são coisas de grandes empresas, grandes grupos corporativos. Que as pequenas e médias empresas tem muito mais coisas para se preocupar, que não tem dinheiro nem recursos para pensar nisso. Que quando a gente fala em gerenciar marca, estamos lidando necessariamente com propaganda e com uma série de ferramentas inacessíveis as pequenas e médias empresas. Eu discordo. Fico até pensando que as grandes corporações preferem que as pequenas acreditem nisso, pois facilita a vida delas. Pode até ser complexo de inferioridade mesmo, sei lá.keka_mingus Mas em vez de só discordar, prefiro falar. E vou falar de um caso local (Recife) que não teve consultoria minha, nem de ninguém conheço. Aliás acho que teve muito pouco de consultoria, mas muito do espírito do verdadeiro Branding, pois assim meu post soa mais neutro, e meu ponto de vista bem mais claro.

Jazz, Salmão e Experiência || Tem gente que acha que restaurante vende comida. Nada mais bobo. Não sou nenhum gourmand, nem nada, mas adoro comer. E sei que comida ruim é intragável. Mas uma boa comida é apenas uma parte do que temos que ter num restaurante. Se você abre uma casa que vende refeições, o mínimo que você pode fazer é uma comida que valha a pena. Aliás, até um vendedor de quentinhas tem que fazer uma comida que seja, no mínimo, gostosa.  Mas o que vou falar por aqui tem bem pouco a ver com quentinha ou self-service. Sábado passado fui jantar no Mingus, aqui em Recife. Uma experiência que adiei porque queria ter tempo para ir ao restaurante como há muito não tinha. Moro pertinho, tinha boas referências. Resolvi conhecer. Nunca vou nas épocas de lanaçamento ou burburinho. Gosto de ir anônimo, entrar e conhecer a casa como ela é. Geralmente tenho algo para dar nota ou falar. Normalmente tenho uma observação ridícula para fazer. Mas o Mingus foi uma surpresa daquelas que só a experiência de Marca explica. para quem não conhece o Mingus é uma casa delicada: inspirada no Jazz, e em particular na fugura de Charles Mingus, o restaurante de Nicola Sultannum é, no mínimo, acolhedor. A decoração é elegante, com fotos maravilhosas em preto e branco. Cheguei cedo, achando a casa bonita e sentei perto de uma janela muito interessante em que pude filar o zumzum da rua. Pedi um vinho português e depois de u couvert muito honesto, pedi um carpaccio com tangerina que estava excelente. Até aí tudo muito bom, mas ainda dentro do que esperava.  Uma música maravilhosa pra lá, um atendimento caprichado pra cá, pedimos. Enquanto eu bebia o vinho e Érica fingia que o fazia veio meu prato: um salmão com crosta de gergelim e risoto de parma e melão. Meu Deus: fazia tempo que não comia nada tão bom. E um prato tão lindo.  A sobremesa foi um Tarte tartin de maçã de fazer chorar. Pedi a conta e olhei o relógio. Meu Deus! Estava naquele lugar há mais de duas horas. E é aí que entra branding.

Poucas pessoas são tão automáticas para comer quanto eu: não à toa sou gordinho. Já comi muito de quase tudo e poucas coisas me surpreendem. Servir comida é simples, mas convencer um cara que come rápido e se irrita num lugar pouco interessante com bem menos que quarenta minutos são outros quinhentos. Branding é antes de tudo gerenciar a experiência do cliente com o que você oferece. Isto se dá através de um pacto tácito que temos com a marca. Esse pacto pode se firmar com as pessoas de diversas formas: com comunicação de massa, com uma ação promocional ou simplesmente com uma experiência fantástica de consumo. Quando entrei no Mingus a experiência proposta por Sultannum começou a ser entregue em pequenos bocados, como se deve fazer numa boa refeição. Entrei no ritmo slow food que uma casa como esta pede, no ritmo do jazz que inspira a casa. Tudo foi construído e voltada para que eu pudesse receber o que a casa tinha de melhor, seu prato principal e terminar doce como toda experiência deveria terminar. Sultannum não trocou comigo uma palavra, e só descobri quem ele era depois: mas ele estava ali, acompanhou minha mesa de perto e me levou até a porta, muito simpático. Aquela noite, todo o conjunto sensorial que tive, não são esquecíveis. Num mundo atolado de marcas (e de restaurantes) o Mingus conquistou uma parcela definitiva da minha mente. Vai ser difícil roubar. E não foi com comida: foi com uma relação plena e emocional entre mim e a marca. Branding é basicamente isso: construir relações sólidas das marcas com as pessoas. E eu pergunto: quantos restaurantes por aí não vendem comida? Ou quantos pequenos negócios não se preocupam exclusivamente com os produtos? A era dos produtos chegou ao se limite para dar espaço a era das experiências. E elas necessariamente incluem a marca como núcleo desta experiência.




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