Às vezes fico impressionado como Pernambuco é um celeiro de cultura para o país: a arte popular ao cinema, teatro, dança e, claro, as artes plásticas. Pode ser por conta da minha relação muita próxima, mas como alguém que gosta e vive no meio da arte não podia me furtar a falar que poucas vezes vi um escultor brasileiro com tanta força quanto Abelardo da Hora. Pernambucaníssimo, ele admira por ser um artista completo: mais que um escultor, é um artista plástico e experimentou e realizou de tudo neste segmento. É um grande desenhista, tem trabalhos de grande expressão na gravura e em cerâmica. De arte cinética à tapeçaria, experimentou seu traço em diversos substratos artísticos. E achando pouco o abuso ainda escreve - tem diversas poesias e é fundador da UBE (União Brasileira e Escritores) em Pernambuco. Ufs! Dá um cansaço até de pensar.
Do alto dos seus 85 anos seria natural pensar que está na hora de parar, mas o artista para a arte. Trabalha todos os dias e continua produzindo de esculturas enormes a desenhos delicados. Liderado por seu filho, o instituto – o IAH - conseguiu um feito para um artista nordestino: emplacar uma exposição do artista em turnê nacional através de apoio firmado com o Banco do Brasil e seu Centro Cultural. Falo “um feito” pois geralmente vemos apenas grandes artistas internacionais ou artistas do Sudeste conseguirem este destaque. Não que não tenhamos grandes talentos no Sudeste, ou que possamos ficar míopes aos grandes nomes da arte mundial. Mas temos tantos artistas e nomes brasileiros fora do eixo Rio-SP que precisam ser conhecidos, que me impressiona como eles circulam pouco . Pior: quando chegam vão ser divulgados em salas menores, com pouca divulgação ou tardiamente em homenagens póstumas.
Bem, saindo das reflexões e partindo para esta exposição a retrospectiva “Amor e Solidariedade” vai ser inaugurada nesta segunda no CCBB de

Abelardo modela uma de suas mulheres, que estará integrando a mostra "Amor e Solidariedade" do CCBB em Brasília
Brasília e segue em setembro para o CCBB do Rio e depois embarca em dezembro para São Paulo, onde ficará no MASP, dada a relevância da obra de Abelardo. Um Abelardo que para o pernambucano é bem próximo – está em diversos edifícios do Recife, em monumentos antigos e recentes – mas pouco conhecido fora do universo das artes plásticas em outros lugares do país. Aqui esbarramos com o artista em esculturas que falam do nosso povo como “Os cantadores” no parque treze de maio ou no “Vendedor de Pirulitos” do nosso Zôo de Dois Irmãos. Lá fora este contato é escasso, apesar dele ter obras no acervo do MASP e no Solar do Unhão na Bahia.
A mostra é uma retrospectiva em homenagem aos 60 anos da primeira exposição do artista (que acontece ano que vem). Mas bem que podia ter outro título em vez de retrospectiva, já que mostra uma série de esculturas inéditas que o artista fez para esta exposição (diversas mulheres), muitas raridades nunca expostas (incluindo cerâmicas) e o famoso busto “Sabino” que normalmente pode ser visto no Instituto Ricardo Brennand. Estarão lá também as matrizes em concreto do Monumento ao Frevo (na nossa Rua da Aurora) e do Monumento aos Retirantes (hoje no Parque Dona Lindu). O evento tem mais de uma centena de peças do artista, mostrando todas as suas fases e temas ligados sempre a questões de solidariedade (sua série de esculturas denúncia e relação à fome e à miséria) e amor (amor ao nosso povo e cultura e às mulheres – que o artista não cansa de destacar como “a coisa mais linda do mundo”).
E Pernambuco, ficou de fora? Nada disso, o grand finale da turnê será em Recife, em pauta prevista para o Mamam. Exatamente no época em que há sessenta anos o artista fez sua primeira exposição no Recife.
Para saber mais sobre o artista alguns links:
Dá pra ver um pouco da obra numa cópia do antigo site oficial do artista, hoje hospedado no site do IAH. Clica aqui.
Também dá pra ver horários da exposição em Brasília (para quem está na terrinha… Isso mesmo, já que eu sou candango de nascença…) no site do CCBB
PS: Na foto do post coloquei uma raridade: a moldagem de uma das esculturas de Abelardo que estará nesta exposição, ainda em barro, antes do molde de gesso. Vida longa ao artista.
















